Dengue já sobrecarrega unidades de saúde de BH 27/02/2009 • Publicadas no Brasil / Exterior
Os últimos dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) confirmam o que se vê pelos postos de atendimento e unidades de pronto atendimento (UPAs): a dengue em Belo Horizonte faz cada vez mais vítimas. Já são 275 casos confirmados, o que representa aumento de 38% em relação à semana passada, quando eram 199. Por isso, o plano de contingência da secretaria é cada vez mais necessário, já que os meses de março e abril são considerados de pico por agentes de saúde.
Enquanto a cidade se vê sob risco de uma iminente epidemia, pacientes com dores pelo corpo e na cabeça, além da febre alta e constante, chegam a esperar mais de quatro horas para serem atendidos e cobram mais médicos e leitos para que o desconforto possa ser amenizado.
Desde as 7h dessa quinta-feira, Kênia Cristina Batista, de 20 anos, esperava por atendimento. Reclamando de dor forte na cabeça e pelo corpo e muito mal-estar, ela, que ainda carregava nos braços o filho de 2 anos, não tinha até as 16h um diagnóstico. Ao acordar, às 6h, ela foi direto ao Centro de Saúde Andrades, no Bairro São João Batista, em Venda Nova, mas foi surpreendida pela falta de luz no posto. “Além disso, não havia médicos para me atender e me mandaram para cá”, conta, enquanto esperava para ser atendida, desde as 11h, na atual UPA Venda Nova, que funciona no antigo Hospital Dom Bosco.
“Nem sei se hoje (quinta-feira) serei avaliada por um clínico. Isso é um absurdo, pagamos nossos impostos e, quando precisamos, não podemos contar com a saúde pública. Isso tem que mudar.”
A equipe do Estado de Minas esteve no Centro de Saúde Andrades e foi informada de que a falta de luz até o meio-dia de quinta-feira foi avisada antecipadamente pela Cemig, que fez reparos na rede da região. Acrescentou que, a partir desse horário, dos sete médicos, cinco estavam disponíveis para o atendimento. Além de Kênia, Carlos Henrique da Silva, de 13 anos, aguardava, na tarde de ontem, ser atendido na UPA Venda Nova, desde as 11h.
“Já são 16h e meu filho, que, além de sentir febre e dores no corpo, está vomitando, ainda não foi atendido. É muito triste essa situação, a unidade está cheia de gente que, com os mesmos sintomas, aguarda por horas”, lamentou a mãe de Henrique, Eva Maria da Silva.
Não muito longe dali, no Bairro Guarani, na Região Norte, deitada em um banco de ardósia, reclamando de dores fortes e mal- estar, Regina Gonçalves também esperava por atendimento no posto de saúde do bairro. “Estou com manchas no corpo e não aguento ficar em pé. Como está demorando, deitei-me para aliviar o mal-estar”, desabafou. Ao lado dela, uma senhora de 70 anos, Raimunda Rosa Camilo, com dengue, recebia soro na veia, sem ao menos estar em uma sala separada. “Aqui só tem um leito, como chegou um rapaz passando muito mal, cedi o meu lugar para ele”, contou. As funcionárias do local alegaram que ontem a demanda foi grande e que já havia 20 casos da doença confirmados por elas.
As regiões Norte e Venda Nova dividem com a Leste o topo do ranking em número de doentes picados pelo Aedes aegypti. Na Norte, na semana passada, havia 105 casos confirmados, número que subiu para 136, seis deles com complicação, na quarta-feira, data de divulgação do último balanço da SMSA. O quadro de outros 313 pacientes está sob análise. Em Venda Nova, de acordo com os dados atuais, são 20 doentes com o tipo clássico da doença e um com a forma hemorrágica (único registrado até ontem em BH), além de 76 suspeitos.
“Belo Horizonte tem uma situação de dengue endêmica, a doença está presente há mais de 10 anos na capital”, avalia Angela Parrela, gerente de Epidemologia e Informação da SMSA, que compara os postos de saúde da capital às cidades pequenas do estado. “São muitos moradores e a demanda é alta. É preciso organização para atender a todos, por isso é fundamental o plano de contingência da secretaria, que vai planejar ações prioritárias para o tratamento dos doentes”, diz, afirmando que o papel da secretaria é estar em constante alerta, mesmo que a epidemia seja apenas uma hipótese.
Continente doente
Assolada por novos surtos de dengue, a América do Sul já registrou mais de 40 mil casos neste ano, segundo dados oficiais dos países afetados e da Organização Panamericana da Saúde (Opas). A entidade informa que a incidência mundial da doença aumentou dramaticamente nas últimas décadas. A Bolívia é hoje o país mais afetado, com mais de 30 mil casos suspeitos e 18 mortos. Venezuela e Brasil vêm em seguida, com cerca de 5 mil casos. O Paraguai, em quarto lugar, sofreu em 2007 a pior epidemia das últimas décadas. Especialistas afirmam que a mudança climática, que causa estações chuvosas mais longas e intensas, contribui para a proliferação do Aedes aegypti, que transmite a doença. A isso se somam o incremento do turismo, a migração e o crescimento da população urbana em áreas carentes de serviços básicos.
fonte: Luciane Evans - Estado de Minas
Crédito Fotográfico: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press

Voltar à página anterior
