Crisântemos na areia 02/05/2009 • Publicadas no Brasil / Exterior

Graciela Ferraris
De Córdoba (Argentina)

Faz uns vinte e poucos anos ouvi falar pela primeira vez de uma coisa chamada dengue. Era um tipo de infecção que assolava os países pobres, tropicais e afastados, lá na América Central; doença tão longe de nós que com certeza que não íamos sofrer. Bom tempo depois foi epidemia no Brasil, mas continuava afetando aos outros enquanto nós aqui, professores de língua portuguesa, ensinávamos o que era a dengue na unidade da saúde que o livro traz, nosso contato era só na teoria.

Agora a dengue está na Argentina, e está na minha mediterrânea cidade de Córdoba. E sentimos medo, medo que ganha nossos pensamentos, nossas ações: não mais plantas em vasos? Não mais fontes em praças e passeios? As pessoas paranóicas andam se sentindo ameaçadas por um minúsculo inseto. Mosquito depois de morto é com todo cuidado revisado: tamanho, cor, listrinhas brancas, assim meio africano, dengue na certa. E a descrença generalizada, própria desses tempos descrentes em que vivemos faz com que existam diferentes pensamentos e atitudes em relação à doença. Que alguns chamam de epidemia enquanto outros dizem se tratarem de casos isolados vindos de regiões distantes, onde a dengue é endêmica. Que alguns políticos consideram de situação alarmante enquanto outros não ocultam pois não querem que o pânico ganhe a cidade, as províncias, onde por toda parte fala-se em mosquito terrorista de perna comprida que vai sendo procurado pelos cantos. No país correm tempos de eleições precipitadas, adiantadas em vários meses, e a dengue que em poucos dias já atingiu metade do país vira problema de política sanitária. Para nós, qual o medo maior? Ter que mudar os hábitos? Aprender tudo de novo? Agir de forma diferente no nosso cotidiano?

Da última vez que estive em Porto Alegre fui ao cemitério levar umas flores para Caio Fernando. Nesse setembro ele teria feito 60 anos, número importante, um ciclo completo do horóscopo chinês. Caio gostava muito de girassóis, que dizia serem muito frágeis, e eu quis lhe deixar um, mas não consegui nesse dia. Quanto pode viver ou sobreviver um girassol num pouco d'água? Talvez uma semana, disse a senhora que me vendeu os crisântemos, mas que falava de flor em terra, coisa que não compreendi nesse momento. Até que cheguei e comecei a andar entre os túmulos enfeitados com flores de papel, de plástico, ou algumas poucas naturais, enterradas na areia. Só então entendi, poderia ter passado mil vezes por entre flores artificiais e talvez comentar não gosto delas, gosto das outras se bem que efêmeras. Chamou a minha atenção toda essa flor comum e ao mesmo tempo diferente, até que vi uns cartazes advertindo sobre a dengue. Era por isso que não havia água nos arredores, para limpar os vasinhos, para colocar neles e prolongar a vida daquela natureza de cores. Aprendi em setembro o que hoje estamos ou deveríamos estar sabendo aqui. Soube então que agora o gesto devia ser outro, outra a forma de chegar: nada de água em vaso nenhum, flores de plástico, de papel, bem quietinhas, ou então flores naturais, sem vida em questão de horas. Era esse o momento, só esse, ainda mais fugaz e que devia durar na memória, no movimento que dura uma oração.

Então compreendi essa nova forma que fazia ainda mais breve o encantamento e a delicadeza de uma flor, e coloquei os crisântemos na areia, pedindo perdão pela brevidade, pelo meu desconhecimento dela: eu vinha de muito longe onde ainda não existia dengue, onde eu não sabia disso, mas a vida agora era assim, descobri. Dediquei um momento a olhar esses pequenos sóis junto da foto do Caio, e parti. Parti pensando como custa aceitar essas mudanças que o tempo traz e nos surpreendem porque aparecem de repente no nosso caminho, e fazem com que nos sintamos frágeis, fracos, indefesos, como crisântemos submersos num pouco de areia.

Graciela Ferraris é professora de língua portuguesa e tradutora. Reside em Córdoba, Argentina. Traduziu para o espanhol "Pequeñas Epifanías", de Caio Fernando Abreu.

fonte: site Terra Magazine